Eu não pretendia escrever no blog até que terminasse o meu TCC, e também (achei que) estava conseguindo me sentir menos atingida emocionalmente por como se configura humanidade. ‘Cabou…

Gostaria de escrever esse post da forma mais imparcial o possível, mas eu me conheço, eu sou passional. Então, a solução que encontrei para tentar impedir que as ideologias daqueles que leem o que escrevo não os ceguem antes de que lerem minhas palavras é, mais uma vez, o conhecimento da história.

No meu primeiro ano de Ensino Médio eu tive vários problemas relacionados a ausência de professores, por motivos que não me lembro com detalhes, eles foram devolvidos para a regional e/ou não havia professor disponível para a matéria. Com isso, tive três professores de história em um ano, e todos eles começavam do início do conteúdo programático: feudalismo, sendo assim, meus colegas e eu deveríamos ser considerados especialistas em introdução a história do sistema feudal. Vamos lembrar o básico:

Nessa forma de organização social e econômica, havia três grupos sociais basicamente fixos: os nobres, chamados senhores feudais, o clero e os ferrados… ops, desculpe – ato falho, os servos.

Os nobres detinham o poder da terra, e eles até poderiam fazer acordos entre si, através da relação de suserania e vassalagem, na qual o suserano cedia sua terra para o vassalo e este lhe jurava ajuda militar e pagava o que equivalia a impostos. Os servos, embora não fossem escravos, estavam aprisionados a terra e a classe social onde viviam, e tinham que jurar lealdade aos seus senhores em troca de proteção e da permissão pelo uso da terra – pagavam inúmeras taxas e era forçados de certa forma a trabalhar para o senhor feudal.

Poxa, nada mais do que justo, não é? Vamos colocar isso em uma situação para ficar mais claro.

Digamos que sou um requintado, instruído e capacitado nobre – alto, loiro, de nome com números romanos. Por fazer parte da nobreza, aprendi dentro de um bom lar cristão como me portar e também fui instruído dentro da arte da guerra. Assim também aconteceu com meu pai, por seu pai também ser um nobre, e assim conseguimos nossa posição social, através da tradição e vínculo que estabelecemos com a nobreza e servindo ao Rei.

Devo dizer que sou um excelente espadachim, pois meu pai fez questão de contratar o melhor para que me ensinasse. Aprendi também a bondade com que um senhor feudal deve tratar seu servo, assim como a forma justa de lidar com todos. Pois, veja bem, toda essa terra da qual eles usufruem é fruto do esforço de minha família, conquistada e protegida com nossa influência social e nosso comando militar, cujo todos os tributos devidos ao Rei são pagos sistematicamente. Lealdade e trabalho é tudo que eles me devem, as quais irei exigir com severidade.

Eles comem e vestem aquilo que produzem. Eu os abrigo, como e visto daquilo que eles produzem na terra que mantenho com o fruto do trabalho deles.

De uma forma simplificada, assim era o pensamento do senhor feudal e seus vassalos. Sabemos que essa classe social tornou-se a burguesia e tempos depois se libertou da tirania do Rei, o suserano superior. Os servos, por sua vez, se tornaram o povo e aos poucos foram alcançando direitos trabalhistas e com o surgimento dos Direitos Humanos, foram por fim considerados indivíduos com o mesmo direito à vida que os de classe econômica mais elevada, e com o sistema capitalista, em tese, tem a oportunidade de alcançar os nobres de seu tempo.

O trabalho já não é uma obrigação, mas um direito que a todos alcança e lhes traz a tão sonhada dignidade de um indivíduo livre. Seria muito bom isso, se não fosse uma mentira bem contada, pois o pensamento do senhor feudal se mantém.

Digamos, da forma mais gentil possível, que a atual nobreza do Brasil não seja os suseranos, mas os vassalos. Que eles sofrem dentro de uma complicada cadeia de suserania e vassalagem, pagando taxas abusivas, sendo obrigados a manter proteção para o seu suserano, mas por outro lado cobrando preços nauseantes e exigindo produção acima do humanamente possível de seus vassalos e servos.

O que eu quero dizer com isso?

<julgamento> Sempre que vejo essas fotos de babás em protestos, dou a minha (nada) famosa risada ácida, que mais parece um pneu cantando. Sei que julgar é um ato descuidado, mas para mim parece meio imbecil levar crianças (e cachorros! Meus senhores e minhas senhoras, por favor, noção) em um local tão tumultuado e barulhento como é uma manifestação. E nossa, final de semana não seria uma para VOCÊ exercer o ato de cuidar de seus filhos? </julgamento>

Sempre que vejo essas fotos de babás em protestos, penso nas minhas aulas repetidas de história – e até em cabresto. Penso em como a estrutura social não mudou de forma alguma, ou em como a classe menos favorecida (que nome longo, vamos chamar de algo mais curto e menos eufêmico, por favor?) está fadada a ser mantida enquanto coadjuvantes de sua própria histórias, pois pertencem ao labor, são propriedades do trabalho que sustenta seus senhores.

No dia 13/03/2016 o pensamento se repetiu, pois mais uma vez veio a imagem de uma mulher vestida de branco atrás de seus patrões cuidando dos filhos dele, enquanto esses estavam vestidos de verde amarelo, com um pobre cachorrinho, em uma manifestação política. E o pensamento foi desaguando na minha mente de tal forma que não pude negar a semelhança com o sistema feudal.

Aconteceu mais ou menos assim:

  • Uma manifestação é um ato político, independente de ser um horário de trabalho dentro da legalidade atual, ninguém deveria trabalhar em um ato político! É um ato proveniente de ideologias, onde supõe-se que as pessoas que ali estão, mesmo que minimamente, compartilham das mesmas. Eu realmente me sentiria ultrajada caso meu “patrão” me convocasse para trabalhar em um protesto, mesmo se fosse no meu horário de trabalho e fazendo minha função. Sinceramente, me recusaria e poderia até ser demitida que não estaria nem aí (pois ainda vivo no conforto dos cuidados dos meus pais e tenho a paz de poder procurar outro emprego, o que nem todo mundo tem).
  • Parece muito com o funcionamento de um feudo, ou até mesmo da ideia cabresto né? Pois apenas finjam que ela não está ali, seus bobos! Eles a representam, pois tem melhores condições de decidir o que é melhor para o país, se ela soubesse melhor das coisas concordaria com eles.

Eu realmente escutei algo parecido há um tempo atrás, que a classe social mais favorecida (de novo um nome enorme e eufêmico) tinha melhores condições de representar o país, pois eles eram mais esclarecidos a respeito de economia e política, e que pobre só troca voto por comida.

As defesas, inclusive do pai da foto, que sugiram na internet eram baseadas em:

1 – Ele estava pagando, é uma profissão regularizada e ela recebia todos os direitos trabalhistas, portanto não havia problema nenhum;

Volte ao momento que eu era homem e nobre: Aprendi também a bondade com que um senhor feudal deve tratar seu servo, assim como a forma justa de lidar com todos. Pois, veja bem, toda essa terra da qual eles usufruem é fruto do esforço de minha família, conquistada e protegida com nossa influência social e comando militar, cujo todos os tributos devidos ao Rei são pagos sistematicamente. Lealdade e trabalho é todo que eles me devem, as quais irei exigir com severidade.

Eles comem e vestem aquilo que produzem. Eu os abrigo, como e visto daquilo que eles produzem na terra que mantenho com o fruto do trabalho deles.

Eita lelê! Não é parecido? E sabe o que é mais engraçado? Esses direitos trabalhistas só foram conquistados durante o governo cuja TODA a ideologia eles têm ojeriza.

Lembro muito bem do petit que uma conhecida deu ao saber que teria que pagar os mesmos direitos trabalhistas que ela recebia, ela não entendia porque tinha que pagar tantas taxas e impostos, sendo que – diferente de empresas – a casa dela não gerava lucro nenhum. Ela se indignava e se perguntava como ela iria manter uma empregada, pois acabaria tendo prejuízo financeiro… pode rir, gente.

Mas meu ponto é que, não haver ilegalidade não significa que não há problema. A diferença social tem sido um problema por anos e é exatamente quem é privilegiado com essa diferença que a mantém por tantos anos. Eu fico me perguntando se não é por essa permanência que eles estão marchando, mesmo que não de forma conscientemente manifesta.

Já pensou que se a diferença social não fosse tão grande, se o acesso às riquezas do país fosse melhor dividido, ninguém dependeria da bondade e astúcia do patrão em criar diversos empregos exaustivos e desestimulantes? Por que é realmente digno ter acesso aos direitos básicos, mas eles não deveriam ser comprados com um trabalho que impede de usufruir dos direitos plenos.  

Sejamos otimistas e pensemos que a pessoa realmente gosta desse emprego que o patrão “criou”, o que diferencia da condição de servidão? Notícias quentinhas: a vida não é só isso, mas vai ser, porque você vai trabalhar até morrer… a menos que consiga ser algo análogo a um clero menor, que era a única possibilidade ascensão social do feudalismo.

 2 – Estavam vendo racismo na foto que não existia, pois é uma coincidência ela ser negra;

Fico feliz pelas exceções, mas as regras são as que me preocupam. Não é difícil de se ver que a posição social, e renumeração – valorização – benefícios – bem-estar, referente a atividade profissional vai decaindo conforme a pele do trabalhador vai escurecendo. Em palavras simples, os empregos que pagam menos e são menos valorizados ainda são ocupados em sua maior parte por negros.  

Não existem coincidências, isso somente prova como a estrutura social e econômica do nosso país permanece quase que fixa. São os herdeiros dos vassalos e suseranos de ontem que hoje pertence à classe mais favorecida. Ascenção social? O que é isso? É de comer? Quero!

3 – Os pais na foto eram pessoas honestas, que ganham seu dinheiro honestamente, pagam tudo direitinho e de quebram geram empregos maravilhosos. Tudo fruto de um puro esforço, análogo ao esforço que uma empregada doméstica faz.

Há controvérsias, mas quem sou eu além de uma simples moça para julgar, né? Só acho que… Talvez tenha um manual de diretrizes para algumas pessoas que diz: até aqui é corrupção, mas aqui não, aqui é atitude ultra honesta.

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/03/13/claudio-pracownik-da-foto-da-baba-foi-vice-presidente-da-brasif/ – vai clicando nos links, muito legal.

Na defesa da foto, ainda havia quem os colocava em posição de total igualdade, e que por isso não tratava a moça como uma vítima, mas a considerava como família. Preciso retornar novamente ao momento que era rico e homem nesse texto: Digamos que sou um requintado, instruído e capacitado nobre – alto, loiro, de nome com números romanos. Por fazer parte da nobreza, aprendi dentro de um bom lar cristão como me portar e também fui instruído dentro da arte da guerra. Assim também aconteceu com meu pai, por seu pai também ser um nobre, e assim conseguimos nossa posição social, através da tradição e vínculo que estabelecemos com a nobreza e servindo ao Rei.

Não, bichim, não há posição de total igualdade. Não há de forma alguma, em momento algum, nem por um segundo, igualdade entre os senhores e os seus servos, quer dizer, entre os patrões e seus empregados.

4 – Sí pasarán! (retirado da resposta do patrão da moça)

Queria dizer “teu cu”, mas ando meio pessimista. Sim, moço, sabemos, já estamos acostumados com tanta gente passando por cima de nossos corpos exaustos, mas ainda estamos aqui. Então, teu quase cu.

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