Você pode ler a primeira parte aquizinho.

Eu precisei de um tempo para entender o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, e não posso dizer que compreendi totalmente. Todas as fontes de informação que conheço estão repletos de afeto da parte daqueles que as transmitem, e não por falta de honestidade, mas acredito ter sido um dos fenômenos que reduziu todo o mundo em um só sentimento: medo.

Durante anos me vi perturbada pelo o que acontecia no mundo de lá, no que justificava a maldade com que os homens agiam contra outros tão semelhantes a eles. O tema do holocausto não descia em minha garganta, a passividade do povo judeu (como eu via naquela época) e a agressividade maligna dos alemães. Alemão cascudo carrapato e barrigudo, era uma musiquinha que aprendi com minha mãe, que aprendeu ainda na infância dela em ocasião que desconheço, mas que me fazia colocar todo o povo alemão nessa posição. Grande espanto eu sofri quando descobri a formação da Alemanha, e quando me deparei com um país que teve suas fronteiras  consolidadas “recentemente”.

A Europa foi durante um tempo o palco das minhas angústias, de quando eu conseguia separar os vilões dos mocinhos, e eu sinto muita falta daquela época. Posso voltar?

Certa vez, me falavam sobre a guerra santa, e eu me perguntava que tipo de santidade haveria em uma guerra. Ouvi atentamente os discursos de quem dizia sobre como o Brasil estava salvo, pois nosso representante (Não sei quem lá Aranha), havia defendido Israel pelo direito de reconhecimento de sua nação e fronteiras –  e assim o Deus cristão estaria do nosso lado, pois havíamos protegido os judeus. Me inquietava saber que havia um pedaço do planeta tão pequeno que era tão cobiçado e gerava tantas paixões.

Pobre jovem Quelzinha… mal eu sabia que o mundo podia ser pior, pois a minha curiosidade me encaminhava para história, justamente no período em que se falava tanto sobre terrorismo e a ameaça islâmica. Eu assisti perplexa o argumento do ocidente se tornando possível quando duas torres vinham a baixo, e a ilusória sensação segurança do mundo contemporâneo também.

O ataque não foi suficiente para ver todo o mundo islâmico como monstros, pois já havia caminhado tanto com os meus 12 anos de idade, que me achava capaz de encontrar minhas próprias respostas.

E a figura piorava, conforme ia aprendendo sobre o povo de lá, fui me deparando com assuntos assustadores, e busquei na literatura a proximidade com os vilões que habitavam em um lugar tão distante. Um dia ganhei de minha prima um livro maravilhoso, chamado As Filhas da Princesa, e angústia do poder destrutivo do homem definitivamente sendo desviada para outro parte do mundo: o Oriente Médio. Nesse livro, fui arrebatada por uma forma de existir que eu ainda não havia me dado conta, apesar de ter em mim já a indignação de uma mini-feminista, eu não tinha em palavras a representação do que seria a opressão que as mulheres podiam sofrer.

Eu aprendi sobre diversas formas de opressão, eu aprendi sobre o estupro, eu aprendi que homens também podem ser estuprados – eu li o Caçador de Pipas com uma faca no coração e outra na mão, pois a busca por dominância e a aceitação dessa causava sentimentos esquisitos em mim – e recentemente aprendi que o estupro de homens é arma de domínio do lado mais forte do conflito.

Toda essa maldade reverberava em mim, e me trazia com força de volta para o local onde eu viva. Eu moro próximo do que hoje é considerada a segunda maior favela da América Latina, mas que sempre foi um lugar de violência e negligencia. Eu entendi algumas experiências ruins que eu havia sofrido, e que havia presenciado amigos, familiares e conhecidos sofrerem.

Foi quando comecei a perguntar: e eu?

A crua e aberta sinceridade que eu tenho nunca foi minha melhor amiga, ela sempre me empurrou para pensamentos que eu preferiria ignorar. Vocês nunca se sentiram um pouco incomodados com como tudo parece tão distante de você? Como se você pudesse ser apenas um expectador do caos e não havia papel nenhum para você na peça? Eu já, e acho que é perturbadora essa falta de atividade quanto a outra alternativa.

Podemos querer ser vilões também!

Me parece que os protagonistas (antes mesmo que antagonistas) sempre são os vilões, seja um líder fundamentalista de uma religião bem restrita, seja um grupo com poder bélico e social que mata jovens negros. São esses vilões os únicos capazes de provocar a saída da inércia, pois contrário do mocinho dos livros, o vilão é o motivo da história, aquele que torna necessária que ela seja contada.

Isso me inquieta, me move, me empurra para uma identificação extraordinária pelos vilões. Atualmente, temos o exemplo do coringa enquanto vilão amado, e isso me dá pistas de que eu não sou a única que me aproximo do papel de antagonista do bem maior. Isso porque a inércia é a morte, a verdade da qual sempre fugimos.

Pera aí que o meu cérebro deu um nó.

No outro texto eu havia dito que queríamos esconder o mal que há em nós, mas agora cheguei a conclusão que também quero atuar de vilã! Eu quero a melhor parte da história, eu quero ser aquela que provoca mudanças, e quero ter tudo o que desejo, mas nem tudo o que desejo me manteria inteira. Que mal-estar! Não, eu nunca quis estuprar ninguém, muito menos impor as verdades secretas de qualquer ideologia minha pela força da bala, quase nunca acho que sou melhor do que outra pessoa, mas nunca me acho mais merecedora de vida do que outro.

Porém, mesmo com todos esses recursos super sofisticados que aprendi sobre viver em uma civilização, pois o bem é mais aprendido do que entendido, sei que dentro de mim há o mal. Ele se manifesta a cada ato de destruição que faço, seja por uma fofoca que certamente vai destruir a autoestima de alguma colega, seja por burlar as regras da sociedade contemporânea. Ou de uma forma pior, se manifestando através do desejo de matar, destruir, que seja aniquilado aquele vilão que nos incomoda, como quem deseja que aniquilar no outro algo que odeia dentro de si.

Cabe somente a mim conhecer essa minha maldade, conversar com ela, bater uns papos, fazer concessões. E cabe aos heróis fazer as pazes com aqueles que atribuem o papel de vilão, pois ele nos completa – como diria o coringa ao Batman – e faz despertar na gente o lado construtivo da criatividade. E quem sabe, só um pouquinho, tirar do estrangeiro o trono do mal, e perceber que isso é dinâmico, e apenas caótico porque tentamos suprimir nossos próprios dragões, transformando eles em verdades absolutas.

Somos pura potencialidade, destrutiva e criativa ao mesmo tempo. Há um tipo de mal nesse mundo, e ele reside em cada um. E acho que algum dia vou ter postar sobre isso novamente.

Até a próxima, pequenos Titãs e Deuses do Olimpo :*


Para pensar:
As filhas da princesa (Jean P. Sasson) | Uma criança tratada como coisa (Dave Pelzer) | Além do princípio do prazer e O Mal-estar da civilização (Freud)
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